O esquema de desvio de cocaína envolvendo as forças de segurança de Mato Grosso do Sul começou a ser investigado muito antes. Em 2023, foi deflagrada a segunda fase da Operação Traquetos, que mirou um ‘investidor’ por ter financiado R$ 1 milhão no tráfico de drogas em Campo Grande. Em julho do ano passado, o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) deflagrou a Operação Blindspot e, um mês depois, um policial penal foi preso — apontado como elo entre uma quadrilha que transportava cocaína em cilindros de ar.
E foram justamente os elementos obtidos nessas operações que permitiram a deflagração da Operação Infiltrados nesta semana, culminando na prisão do delegado Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa. De acordo com o Gaeco, as investigações começaram em outubro de 2025, a partir das Operações Traquetos e Blindspot.
Inclusive, horas após a Operação Infiltrados, a Sejusp-MS (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de MS) se manifestou, afirmando que os servidores já eram investigados pelas respectivas Corregedorias, pontuando que três dos alvos já haviam sido presos antes. Um foi exonerado recentemente.
Vale lembrar que o delegado alvo da operação já liderou a Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico) no combate ao tráfico e comércio de drogas, comércio ilegal de entorpecentes e desarticulação de organizações criminosas e esquemas de lavagem de dinheiro.
Após a prisão, a defesa do delegado, representada pelo advogado Amilton Ferreira, afirmou que o servidor está surpreso. “Está muito surpreso, não está entendendo nada do que aconteceu. Mas logo a gente vai saber quais são as acusações”, explicou o advogado Amilton.
O ex-policial civil Augusto Torres Galvão Florindo, acusado de envolvimento em um esquema de contrabando e pagamento de propina, também foi alvo da Operação Infiltrados nesta semana. Augusto, que era investigador de Polícia Judiciária, foi preso em flagrante, em novembro de 2025, com R$ 130 mil em espécie. Na ocasião, segundo a investigação, ele confessou que o dinheiro era proveniente de contrabando. No último dia 9, Augusto foi demitido da corporação.
Confira a lista dos presos na Operação Infiltrados:
- Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa (delegado da Polícia Civil de MS);
- Douglas Tobias (policial civil);
- Neverson Vieira de Araújo (policial civil);
- Luiz Carlos de Souza (policial civil);
- Nelson Ricardo Barros de Oliveira (policial civil);
- Nilton César Sales dos Santos (policial civil);
- Alison Lemes Bezerra (policial militar);
- Augusto Torres Galvão Florindo (ex-policial civil);
- Vitor Ribeiro Venancio dos Santos (policial penal, que já estava preso);
- Lucas da Silva dos Santos, vulgo LK (acusado de tráfico);
- Valdenice da Silva Goes (mãe de LK);
- Ana Carolina da Silva dos Santos (irmã de LK);
- Wesley Benites.
Investigações
As investigações que resultaram na Operação Infiltrados, nesta quinta-feira (24), indicaram a participação ativa de policiais civis, penais e militares com o tráfico de drogas. Alguns, inclusive, chegaram a monitorar um depósito de drogas para fazer a apreensão e, depois, repassar a outros traficantes.
Conforme apurado pela Reportagem , em 2021, houve a prisão do traficante ‘LK’, Lucas da Silva dos Santos. Os policiais levaram o rapaz para a Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico) pelos crimes de desobediência e desacato.
Depois, LK teria feito três transferências bancárias de R$ 1.500 para o mesmo policial que o prendeu anteriormente, Neverton Vieira, em datas diferentes.
Blindspot
Segundo o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), a quadrilha especializada na apreensão e revenda de cocaína foi revelada a partir de duas operações anteriores. São elas: a Blindspot e a Traquetos.
Na Blindspot, foi alvo Edimilson Santos Pereira, apontado como um dos líderes da organização, que tinha amizade íntima com um policial penal. Edmilson volta a ser citado na investigação da Operação Infiltrados.
Após a apreensão de 326 quilos de cocaína em dezembro de 2022, consta na investigação que os policiais civis Roberto Palmeira, Neverson Vieira e Nilton César receberam essa droga na Denar. A partir daí, Edmilson teria dito para LK “viabilizar a aquisição dessa droga”.
Até o momento, não foram divulgados detalhes de tal negociação, se chegou a acontecer.
Monitoravam depósito
Entre maio e junho de 2025, o policial penal Vitor Venâncio, com LK e dois policiais militares, teria monitorado um depósito de drogas. A intenção seria a de apreender a droga que estava nesse galpão para, depois, revender o entorpecente.
O que o Gaeco aponta ainda é que os servidores públicos da Sejusp-MS (Secretaria de Estado de Segurança Pública de MS) checavam veículos nos sistemas oficiais para os traficantes. Além disso, colocavam ‘carrapato’ nos veículos, como é popularmente chamado o rastreador.
Um dos policiais militares envolvidos seria Alison Lemes Bezerra. O outro seria Thiago Laurentino, preso em maio deste ano durante investigações de roubo de muamba em Nova Alvorada do Sul.
Venda de droga
Já em novembro de 2022, o Gaeco teria identificado tentativa de venda de droga por meio de policiais civis. A investigação aponta que Beto Palmeira, Nilton César e Neverson apreenderam 30 quilos de cocaína. Logo após a apreensão, eles ofereceram a droga para venda antes mesmo de se apresentarem na delegacia. A tentativa de venda seria para Edmilson Santos e um familiar dele.
Operação Traquetos
O Gaeco deflagrou a Operação Traquetos para cumprir 18 mandados de prisão preventiva e 26 mandados de busca e apreensão. Alvos são traficantes do Estado que levavam drogas de Bela Vista e Ponta Porã para a Bahia, Goiás e São Paulo.
Ainda segundo o órgão, a organização criminosa tinha uma grande rede de batedores. Também havia pontos de apoio nas cidades de Campo Grande, Anastácio e Aquidauana, com o intuito de escoar a droga.
Os mandados foram cumpridos em Anastácio, Campo Grande, Corumbá e Coxim. Também conforme o Gaeco, o trabalho investigativo durou cerca de 17 meses, tendo se iniciado em agosto de 2021.
Assim, resultou em uma série de prisões em flagrante por tráfico de drogas, como também identificou a estrutura da organização criminosa.
Um dos alvos teria se comunicado com a esposa por meio de uma psicóloga do Presídio da Gameleira, em Campo Grande. O casal foi preso preventivamente na ação de combate ao tráfico de drogas e armas, além de lavagem de dinheiro.
Fonte: Midiamax


















