{"id":1549,"date":"2023-07-27T20:42:55","date_gmt":"2023-07-27T20:42:55","guid":{"rendered":"https:\/\/mirandams.com.br\/site\/?p=1549"},"modified":"2023-07-27T20:42:55","modified_gmt":"2023-07-27T20:42:55","slug":"nasce-em-ms-a-primeira-lingua-indigena-de-sinais-oficial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mirandams.com.br\/site\/2023\/07\/27\/nasce-em-ms-a-primeira-lingua-indigena-de-sinais-oficial\/","title":{"rendered":"Nasce em MS a primeira l\u00edngua ind\u00edgena de sinais oficial"},"content":{"rendered":"<p>Elcio, Everton, Maria Eliza. Dos sete filhos de dona Ondina, mulher ind\u00edgena da etnia terena, nascida e criada na Aldeia Cachoeirinha, em Miranda, estes tr\u00eas s\u00e3o surdos.<\/p>\n<p>A descoberta veio pelas m\u00e3os das crian\u00e7as ainda beb\u00eas. Quando, em vez de falarem, apontavam para o que queriam, nascia ali uma l\u00edngua de sinais caseira, que viria a ser a l\u00edngua terena de sinais oficializada.<\/p>\n<p>\u00c9 no galp\u00e3o anexo \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica, constru\u00edda em 1931, na Aldeia Cachoeirinha, que as m\u00e3os falam e os olhos ouvem no III Encontro de Terena Surdos, resultado da luta de Ondina pelo respeito \u00e0 cidadania dos filhos, e que hoje se estende a toda comunidade surda da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 passei por muitos obst\u00e1culos junto com os meus filhos. J\u00e1 passei frio, passei fome, j\u00e1 chorei, j\u00e1 chorei muito. Fui discriminada junto com eles e sei o quanto a sociedade tem um olhar preconceituoso contra eles por serem surdos e ind\u00edgenas. Por esse motivo que estou nesta luta e, enquanto eu estiver viva, nunca vou me calar diante dos preconceitos e discrimina\u00e7\u00e3o contra qualquer ind\u00edgena surdo\u201d, se compromete Ondina Ant\u00f4nio Miguel, de 57 anos.<\/p>\n<p>O tema do III Encontro \u00e9 sobre educa\u00e7\u00e3o e lingu\u00edstica dos ind\u00edgenas terena surdos e acontece a 100 metros de onde a fam\u00edlia de Ondina sofreu a primeira discrimina\u00e7\u00e3o, 20 anos atr\u00e1s. Por n\u00e3o ter int\u00e9rprete de l\u00edngua de sinais, a escola da comunidade avisou que n\u00e3o teria condi\u00e7\u00e3o de dar aula para Elcio, o filho mais velho de Ondina.<\/p>\n<p>A m\u00e3e n\u00e3o se cansa de contar a hist\u00f3ria. Durante quatro anos a educa\u00e7\u00e3o do filho ficou suspensa. Ele n\u00e3o ia \u00e0 escola, at\u00e9 que a fam\u00edlia foi levada \u00e0 cidade para procurar acolhimento e estudo.<\/p>\n<p>Na terceira porta que Ondina bateu, a dire\u00e7\u00e3o da escola n\u00e3o s\u00f3 aceitou as crian\u00e7as como abra\u00e7ou a fam\u00edlia trazendo-os inclusive para fazer exames em Campo Grande. Ainda assim, era preciso percorrer diariamente 30 quil\u00f4metros contando ida e volta da aldeia para a cidade.<\/p>\n<p>\u201cMeu filho Elcio concluiu o Ensino M\u00e9dio, se mudou para Campo Grande em busca de mais oportunidades. O Everton tamb\u00e9m concluiu o Ensino M\u00e9dio e atualmente est\u00e1 morando comigo. A Maria Eliza seguiu o seu caminho, estudou, casou-se com um surdo e tem dois filhos fluentes em Libras, eles moram em Campo Grande. Eu, como m\u00e3e, sigo batalhando por eles para continuarem estudando e realizarem os seus sonhos. Eu n\u00e3o perco a esperan\u00e7a porque sei que eles s\u00e3o capazes\u201d, ressalta a m\u00e3e.<\/p>\n<p>Ondina hoje \u00e9 falante de quatro l\u00ednguas, a terena e a l\u00edngua portuguesa, a l\u00edngua terena de sinais e Libras (L\u00edngua Brasileira de Sinais). Mas, para que ela aprendesse a Libras, e os filhos n\u00e3o deixassem de usar a l\u00edngua terena de sinais, foi preciso unir muitas m\u00e3os num trabalho pela inclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Entre tantas l\u00ednguas faladas e sinalizadas, Ondina se confundiu em sua apresenta\u00e7\u00e3o. Ela \u00e9 m\u00e3e de ind\u00edgenas surdos e fluente em Terena, Portugu\u00eas, Libras e L\u00edngua Ind\u00edgena de Sinais<\/p>\n<p>Da reivindica\u00e7\u00e3o ao direito lingu\u00edstico<\/p>\n<p>Em 2007, os caminhos de Ondina e Denise Silva se cruzaram, durante o doutorado da professora, hoje p\u00f3s-doutora em Lingu\u00edstica, t\u00e9cnica da SED (Secretaria de Estado de Educa\u00e7\u00e3o), representante da Unesco no Estado e atuante em tr\u00eas frentes para a preserva\u00e7\u00e3o das l\u00ednguas ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>\u201cUm dia cheguei na aldeia e ela me falou da dificuldade que estava tendo em se comunicar com os filhos, porque ela falava, eles n\u00e3o entendiam e estavam se isolando. Fui tentar entender, e o que estava acontecendo \u00e9 que quando o surdo aprende Libras ele automaticamente deixa estes sinais caseiros de lado\u201d, explica Denise.<\/p>\n<p>Como a conviv\u00eancia dos tr\u00eas filhos de Ondina se dava mais tempo na escola do que em casa, eles passaram a sinalizar Libras e escrever o portugu\u00eas com a gram\u00e1tica da l\u00edngua de sinais. \u201cTemos l\u00ednguas coexistindo ali, e eles n\u00e3o conseguiam estabelecer uma comunica\u00e7\u00e3o. N\u00e3o era um problema emocional, nem rejei\u00e7\u00e3o, e sim uma dificuldade de comunica\u00e7\u00e3o\u201d, pontua a t\u00e9cnica da SED.<\/p>\n<p>Credito: O pantaneiro<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Elcio, Everton, Maria Eliza. Dos sete filhos de dona Ondina, mulher ind\u00edgena da etnia terena, nascida e criada na Aldeia Cachoeirinha, em Miranda, estes tr\u00eas s\u00e3o surdos. A descoberta veio pelas m\u00e3os das crian\u00e7as ainda beb\u00eas. 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